Conforme destaca o consultor técnico, Márcio Velho da Silva, o debate sobre aterro e lixão ainda confunde muita gente, porque os três modelos de destinação final parecem semelhantes a quem observa de longe. Em todos, o lixo é depositado no solo; entretanto, a engenharia por trás de cada um muda completamente o resultado. Essa diferença técnica separa uma solução ambientalmente responsável de um passivo que afeta o solo, a água e a saúde da população. Interessado em saber como? Confira nos próximos parágrafos.
O que diferencia aterro sanitário, aterro controlado e lixão?
De acordo com Márcio Velho da Silva, o aterro sanitário é uma obra de engenharia planejada: o terreno passa por estudos de solo e de lençol freático, recebe camadas de proteção e conta com sistemas de drenagem de líquidos e gases. O lixão, no extremo oposto, despeja resíduos a céu aberto, sem qualquer barreira. O aterro controlado ocupa a posição intermediária, com cobertura diária de terra, porém sem a estrutura completa do sanitário.
Isto posto, o erro mais comum está em tratar o aterro controlado como uma versão simplificada do sanitário. Na prática, a cobertura de terra reduz odor, insetos e a presença de animais, o que melhora a aparência da área. Isso não significa, contudo, que o solo e a água estejam protegidos, pois a proteção real acontece abaixo da superfície, ressalta Márcio Velho da Silva.
Impermeabilização, chorume e monitoramento: onde cada modelo falha ou acerta
Três critérios técnicos explicam a distância entre os modelos. Segundo o consultor técnico, Márcio Velho da Silva, cada um protege uma parte diferente do ambiente e, quando falta, abre caminho para a contaminação do solo e dos lençóis de água. Com isso em mente, entre eles, estão:
- Impermeabilização: o aterro sanitário usa manta de proteção e argila compactada na base; o controlado e o lixão deixam o resíduo em contato direto com o solo;
- Tratamento de chorume: o sanitário coleta e trata o líquido poluente gerado pela decomposição do lixo; o controlado e o lixão deixam que ele se infiltre no solo ou escorra para córregos;
- Monitoramento: o sanitário acompanha águas subterrâneas, gases e a estabilidade da pilha de resíduos; nos demais, praticamente não existe medição contínua.

A base impermeável segura o chorume, o tratamento remove a carga poluente e o monitoramento revela falhas a tempo de corrigi-las, evitando danos maiores. Esses itens funcionam em conjunto, e basta uma falha em qualquer etapa para comprometer toda a proteção ambiental do local e de seu entorno.
Por que o aterro controlado também não é solução adequada?
Sem uma manta impermeável, o chorume atravessa a camada de terra e alcança o lençol freático. Sem sistema de tratamento, esse líquido não recebe nenhuma depuração. E, sem monitoramento, a contaminação avança em silêncio durante anos, o que encarece a recuperação da área e amplia o risco para poços e nascentes da região, frisa Márcio Velho da Silva.
Há ainda o custo para a vizinhança. Quando a proteção do solo falha, a poluição atinge as áreas próximas por meio da água e do ar, e o efeito aparece em poços contaminados, odores persistentes e queda na qualidade de vida. Por isso, o custo real desse modelo recai sobre a comunidade e, mais tarde, sobre o orçamento público.
Destinação de resíduos exige engenharia, fiscalização e responsabilidade
Em última análise, a escolha do modelo de destinação revela o grau de compromisso de uma cidade com o futuro. Enquanto o lixão ignora as consequências e o aterro controlado as esconde sob a terra, o aterro sanitário assume a responsabilidade pelo que gera, com barreiras, tratamento e vigilância permanentes durante toda a vida útil do local.
Assim sendo, escolher entre aterro e lixão não é uma questão de preferência, e sim de rigor técnico. O aterro sanitário protege o solo, a água e as pessoas. O lixão e o aterro controlado apenas transferem o problema para o futuro. Desse modo, cidades que investem em engenharia adequada protegem o território e reduzem custos ambientais de longo prazo.
