Novo Nordisk iniciou programa em Porto Alegre e no Rio de Janeiro com Wegovy para pacientes com obesidade grave; a patente vencida e a entrada de genéricos mudam o cenário regulatório
A chegada da semaglutida ao Sistema Único de Saúde, ainda que em formato restrito de projeto piloto, representa uma das movimentações mais comentadas da saúde pública brasileira no primeiro semestre de 2026. A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk anunciou parceria com instituições públicas brasileiras para implementar um projeto piloto que inclui o uso de semaglutida no tratamento da obesidade em serviços do SUS, com o programa implementado inicialmente no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, e no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro. Para os profissionais de saúde, é fundamental entender o que esse projeto representa clinicamente, o que ele não garante do ponto de vista de acesso e quais são os próximos passos na discussão sobre incorporação definitiva da tecnologia ao SUS. Afya
A semaglutida é um análogo do GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon 1) que atua em receptores localizados principalmente no hipotálamo e no trato gastrointestinal, reduzindo o apetite, retardando o esvaziamento gástrico e promovendo saciedade. Seu perfil de eficácia no tratamento da obesidade foi demonstrado em estudos como o STEP UP, que mostrou resultados próximos aos obtidos com cirurgia bariátrica. O estudo STEP UP apresentou resultados com uma dose mais alta da semaglutida: perda média de 21% do peso em 72 semanas, com um terço dos participantes ultrapassando 25%, dados que redefiniram as expectativas clínicas sobre o tratamento farmacológico da obesidade. Voysaude
O que o projeto piloto efetivamente oferece
Para evitar interpretações equivocadas, é fundamental delimitar o alcance real da iniciativa. A proposta é oferecer uma opção farmacológica para complementar o tratamento de pacientes que já estão em acompanhamento nos centros participantes, considerados referências na abordagem multidisciplinar da obesidade. Não há previsão de abertura de vagas para novos pacientes. Isso significa que o projeto não amplia o acesso ao Wegovy para a população geral, mas sim gera dados científicos em contexto de mundo real sobre como o medicamento se comporta em pacientes do sistema público, com suas comorbidades típicas e sua realidade socioeconômica. ICTQ
O objetivo do projeto é justamente gerar dados de mundo real que permitam avaliar não apenas os resultados clínicos do tratamento, mas também seus impactos no sistema de saúde, como redução de complicações cardiovasculares, hospitalizações e demanda por procedimentos mais complexos. Do ponto de vista da política pública, esse tipo de evidência é o que alimenta as discussões da Conitec sobre incorporação de novas tecnologias ao SUS. Sem dados robustos de efetividade em contexto real de uso no sistema público, a Conitec não tem como revisar sua recomendação anterior contrária à incorporação. Afya
A questão da patente vencida e os genéricos
Uma mudança de contexto relevante ocorreu em março de 2026 e merece atenção dos profissionais. A patente da semaglutida venceu no Brasil em março de 2026, e o mercado já se movimentou: pelo menos 20 farmacêuticas solicitaram autorização à Anvisa para produzir versões genéricas. Historicamente, a entrada de genéricos reduz preços em 30% ou mais. Essa queda de preço não é automática nem imediata: o processo de aprovação dos genéricos pela Anvisa leva tempo, e a comprovação de bioequivalência para medicamentos injetáveis como a semaglutida tem exigências técnicas específicas. Mas o sinal é claro: o custo do medicamento tende a cair, o que muda o principal argumento usado pela Conitec para não incorporá-lo ao SUS. Voysaude
A incorporação de terapias baseadas em análogos de GLP-1 já foi analisada pela Conitec, mas não foi recomendada devido ao alto custo. Estimativas anteriores do Ministério da Saúde apontavam para custos na casa de bilhões de reais ao longo de cinco anos, considerando a demanda potencial de pacientes com obesidade no Brasil. Com genéricos no mercado e preços mais baixos, essa equação pode mudar. O médico que acompanha pacientes com obesidade grave e comorbidades cardiovasculares deve monitorar de perto essa discussão regulatória, porque ela determinará as opções terapêuticas disponíveis no sistema público nos próximos anos. Afya
Obesidade no Brasil: os dados que justificam a urgência
O contexto epidemiológico é inescapável para entender a relevância desse debate. Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a prevalência da obesidade no Brasil aumentou 118% entre 2006 e 2024, atingindo cerca de 25,7% dos adultos brasileiros. Esse aumento não é um dado abstrato: ele se traduz em maior incidência de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, síndrome metabólica, apneia do sono, doenças cardiovasculares e osteoartrite, todos eles com demanda crescente por atendimento no SUS. Afya
A cirurgia bariátrica, que segue sendo a intervenção com maior efetividade para a obesidade grave, tem lista de espera longa no sistema público e não pode absorver a demanda existente. Medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, se incorporados ao SUS com critérios bem definidos de elegibilidade clínica, poderiam representar uma alternativa para pacientes em espera por cirurgia ou para aqueles nos quais o procedimento cirúrgico está contraindicado. A discussão não é sobre substituir uma tecnologia pela outra, mas sobre ampliar o arsenal terapêutico disponível. Qualquer decisão de tratamento deve ser tomada em conjunto com o médico, que avaliará as indicações, as contraindicações e o histórico clínico de cada paciente.
Fontes: Portal Afya | Voy Saúde | ICTQ
