O Brasil atingiu, em 2025, a menor taxa de casos de malária dos últimos 47 anos, resultado atribuído em boa parte à incorporação da tafenoquina ao Sistema Único de Saúde. Os dados foram apresentados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, realizado em Brasília, e mostram uma queda expressiva tanto no número de infecções quanto nas mortes causadas pela doença nos últimos dois anos.
Os números que marcam a queda da doença
Segundo o Ministério da Saúde, o país registrou 118.037 casos de malária contraídos em território nacional em 2025, uma redução de 15% em relação ao ano anterior e o menor patamar desde 1978. As mortes pela doença caíram de 56, em 2024, para 39 em 2025, uma queda superior a 30%. Os casos da forma mais grave da malária também recuaram 30,7% no mesmo período. Entre janeiro e julho deste ano, a tendência de queda se manteve: os registros passaram de 17 mil para 7,6 mil na comparação com igual período do ano anterior, recuo de 55%.
A tafenoquina foi incorporada ao SUS em 2023 para pacientes adultos com 16 anos ou mais e peso igual ou superior a 35 quilos, e sua oferta efetiva começou em 2024. A grande diferença em relação a tratamentos anteriores está na forma de administração: uma única dose, com ação prolongada, capaz de atuar sobre a forma do parasita que permanece alojada no fígado após a infecção inicial. Esse é justamente o mecanismo responsável pelas recaídas frequentes na malária causada pelo tipo mais comum da doença no Brasil, que sem o tratamento adequado pode voltar a se manifestar meses depois do quadro inicial parecer resolvido.
O alcance do medicamento até agora
Até junho de 2026, mais de 33,7 mil pessoas já haviam recebido tratamento com tafenoquina em todo o país. Desse total, 3.920 tratamentos foram realizados em Distritos Sanitários Especiais Indígenas, populações historicamente mais vulneráveis à doença por viverem próximas a áreas de mata e rios na região amazônica. No Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, por exemplo, 1.515 pessoas foram tratadas com o medicamento, e a comparação entre março e junho deste ano com o mesmo período de 2025 mostrou queda de 61,9% nas recaídas registradas na região.
Segundo o ministério, o país se tornou o primeiro do mundo a incorporar a tafenoquina ao tratamento público da malária em larga escala, o que trouxe atenção internacional para a experiência brasileira de combate à doença. O ministro Alexandre Padilha classificou os resultados como parte de um esforço mais amplo dentro do programa Brasil Saudável, que estabelece a meta de eliminar totalmente as mortes por malária no país até 2030. Alcançar esse objetivo depende não apenas do novo medicamento, mas também da ampliação simultânea do diagnóstico e da oferta de testes rápidos nas regiões endêmicas.
O peso da malária na região amazônica
A malária segue concentrada majoritariamente na região Norte do país, onde as condições ambientais favorecem a proliferação do mosquito transmissor. Populações ribeirinhas, indígenas e trabalhadores rurais que atuam próximos a áreas de garimpo e extração de madeira costumam figurar entre os grupos mais expostos ao risco de contaminação. A ampliação do acesso a testes diagnósticos rápidos, somada à disponibilidade da tafenoquina nas unidades de saúde dessas regiões, tem sido apontada pelo ministério como fator determinante para sustentar a trajetória de queda observada nos últimos dois anos.
Apesar dos números favoráveis, especialistas em medicina tropical alertam que a malária é uma doença sensível a fatores climáticos e sociais que podem reverter avanços conquistados em pouco tempo. Períodos de maior incidência de chuvas, migração populacional para áreas de garimpo ilegal e eventuais interrupções na cadeia de distribuição de medicamentos e testes são apontados como riscos que exigem monitoramento constante por parte das equipes de vigilância epidemiológica espalhadas pelos estados da região amazônica.
O que o resultado representa para o SUS
Para gestores de saúde pública, o caso da tafenoquina se tornou um exemplo de como a incorporação de uma nova tecnologia terapêutica pode gerar impacto mensurável em um intervalo relativamente curto de tempo. A combinação entre um medicamento de dose única e a expansão do diagnóstico ilustra como estratégias integradas de saúde pública podem produzir resultados concretos mesmo em regiões de acesso mais difícil, como grande parte da Amazônia Legal, onde a logística de distribuição de insumos de saúde historicamente enfrenta desafios geográficos consideráveis.
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